19.4.09

J.G. Ballard

15.9.07

Medo e Delírio em Las Vegas

"Deixa eu explicar pra você de um jeito bem simples. A gente tá procurando o Sonho Americano. Falaram pra nós que ele tá aqui por perto... Bem, a gente tá aqui atrás dele, porque nos mandaram vir lá de São Franciso pra fazer isso. Pra encontrar o sonho. É por isso que nos deram esse Cadillac branco. Acham que assim talvez fique mais fácil de encontrar..."

Finalmente sai no Brasil Medo e Delírio em Las Vegas, a obra-prima de Hunter Thompson, em que ele e seu advogado samoano vão à cidade dos cassinos tentar entender, através de corridas de motos no deserto e convenções policiais sobre drogas, o que aconteceu com a América.

Mas a impressão que temos é que antes de a viagem começar eles já conheciam a resposta. Sabiam que o país tinha perdido sua última chance. Em 71, ano em que o livro foi escrito, Jimi Hendrix e Janis Joplin já estavam mortos, deixando Nixon e o Vietnã em seu lugar. Com isso o que de fato acontece é que Thompson e seu companheiro nem ao menos tentam fazer alguma investigação, mas decidem aproveitar a viagem para fazer uma declaração. Eles enxergam exatamente a mesma coisa que Robert Crumb, mas ao invés de se tornarem críticos distantes e cínicos como ele, optam pela posição contrária, a assimilação e o confronto direto com o "inimigo".

Ambos se entopem de todos os tipos de drogas imagináveis e passam a apavorar corretos cidadãos americanos, arranjar brigas com garçons e destruir carros e quartos de hotel, como que dizendo "se é isso que vocês querem é isso que vão ter". No fim, a coisa toda se torna uma jornada destrutiva que parece adiantar em alguns anos o No Future formalizado no final daquela década. O Doutor Thompson questiona:
"Ah, que perda de tempo. Memórias dolorosas e flashbacks horrendos, dirigindo por entre as brumas do tempo na Stanyan Street... relembrar não faz sentido e não proporciona nenhum conforto aos que restaram. A questão, como sempre, é - e agora...?"
Curioso é que o livro não tem um tom pesado, não é uma daquelas narrativas sobre drogas e corrupção que pregam o apocalipse. Muito pelo contrário, toda a loucura é desejada e induzida pelos próprios protagonistas. Parece que à sua maneira eles experimentam a transição explicada por David Harvey (Condição Pós-Moderna):
"O modernismo dedicava-se muito à busca de futuros melhores, mesmo que a frustração perpétua desse alvo levasse à paranóia. Mas o pós-modernismo tipicamente descarta essa possibilidade ao concentrar-se nas circunstâncias esquizofrênicas induzidas pela fragmentação e por todas as instabilidades (inclusive as lingüísticas) que nos impedem até mesmo de representar coerentemente, para não falar de conceber estratégias para produzir, algum futuro radicalmente diferente."
É como se constatassem que o sonho havia definitivamente acabado e testassem de forma inocente e desesperada, através da alteração química de seus estados mentais, como seria a vida após isso, intuitivamente entendendo a idéia apresentada em O Anti-Édipo:
"Um esquizofrênico passeando é um modelo melhor que um neurótico deitado no divã do analista. Uma respirada de ar fresco, uma relação com o mundo exterior."

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12.2.07

William Gibson em inglês

E já que o tema é literatura, aguardamos ansiosamente o novo livro do mestre, Spook Country (se você achou essa capa sinistra, olha a da versão inglesa). Da descrição da Amazon:

"Tito tem vinte e poucos anos. Nascido em Cuba, ele fala russo fluentemente, mora em um quarto em um armazém em NoLita [N.T.: North of Little Italy, distrito nova-iorquino] e realiza trabalhos delicados envolvendo transferência de informação.

Hollis Henry é uma jornalista investigativa, a trabalho para uma revista chamada Node. A Node ainda não existe, e tudo bem; ela está acostumada a isso. Mas parece que ela está bloqueando o tipo de barulho que as revistas normalmente cultivam antes de serem lançadas. Bloqueando pra valer. É estranho, até um pouco assustador, se Hollis se deixar pensar muito nisso. O que ela não faz; ela não pode se dar a esse luxo.

Milgrim é um viciado. Um viciado sofisticado, ligado em ansiolíticos vendidos com receita médica. Milgrim percebe que ele não sobreviveria se Brown, o homem misterioso que o salvou de um desentendimento com seu traficante, parasse de lhe arranjar aqueles pacotes em plástico bolha. Milgrim não sabe dizer o que exatamente Brown está tramando, mas parece ser de natureza militar. Pelo menos, o russo sutil de Milgrim parece ter muito a ver com isso, assim como arrombar salas trancadas.

Bobby Chombo é um "produtor", e um enigma. No seu trabalho diurno, Bobby é um investigador de problemas técnicos para fabricantes de equipamentos militares de navegação. Ele se recusa a dormir no mesmo lugar duas vezes. Ele não se encontra com ninguém. Hollis Henry recebeu ordens para achá-lo."


E aí, tem alguma chance de ser ruim?

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Cory Doctorow em português

Finalmente um livro de Cory Doctorow foi traduzido para o português. Agora é possível ler O Fundo do Poço no Reino Encantado (no original, Down and Out In the Magic Kingdom), primeiro romance de um dos fundadores do Boing Boing, na nossa língua.

O legal é que isso não aconteceu pelo interesse de alguma editora brasileira no trabalho de Doctorow, mas sim porque José Rafael Zullo achou que seria bom esse livro existir em português, fez a tradução e a mandou para o autor disponibilizá-la em seu site - o que só foi possível pois a obra foi lançada sob Creative Commons.
"Sim, há problemas legais. Sim, é difícil saber como as pessoas poderão ganhar dinheiro fazendo este tipo de coisa. Sim, há muitas implicações sociais e uma séria ameaça à imaginação, à liberdade, à economia e tudo o que estiver relacionado a isso. É um clássico cenário de fim-de-uma-era e, sendo um escritor de ficção científica, cenários de fim-de-uma-era fazem parte do meu negócio." - Cory Doctorow, na introdução.
Via o próprio Boing Boing, é claro.

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7.2.07

Revolução classe média

Advogados, publicitários e professores universitários de um condomínio de classe média londrino angustiados pela falta de sentido de suas vidas resolvem quebrar o pacto social. Deixam de ser pacatos, elegantes, bem educados e civilizados e passam a destruir videolocadoras, roubar supermercados, tirar os filhos da escola, não pagar mais suas hipotecas e queimar suas casas quando são despejados.

Esse é o tema de Terroristas do Milênio de J.G. Ballard (título menos sensacionalista no original - Millenium People).

Vale a pena ler? Sim, muito. Por quê? Porque quatro cartas-bombas explodem em cinco dias na Grã-Bretanha. Há suspeitos? Pois é, "a polícia está investigando se as explosões têm alguma relação, enquanto surgem especulações de que motoristas, revoltados com multas e o pagamento de pedágios caros, tenham iniciado uma campanha de pacotes-bombas."

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